domingo, 11 de março de 2012

Pacova ou banana da terra


O calor deu uma trégua, ufa! Estava demais! Que eu me lembre, um verão como este, só na minha infância...
 Eu  estava querendo comer só coisa fria. E hoje, ao acordar, meus sentidos me pediram um café da manhã sem trigo e quente. Aí está: banana da terra frita no guee (manteiga clarificada), levemente caramelada em seu próprio açúcar e queijo minas frescal Balkis.
Cãmara Cascudo, no seu "História da Alimentação no Brasil", conta que a banana da terra é a única que realmente é brasileira, por isso o nome. O nome indígena dela é pacova e todas as outras são de origem asiática, mas nos chegaram pela África. Estão de tal forma adaptadas que achamos que sempre existiram por aqui. Pensei na Bahia onde se come banana com cuscus de milho com queijo, mandioca e inhame cozidos no café da manhã . E descobri porque a Bahia não tem padaria...Pensou o que seriam de todas as padocas se os paulistanos abolissem o pãozinho do café da manhã? A padaria é a praia do paulistano, mas experimente de vez em quando africanizar o seu café da manhã. As padarias vão sobreviver e você vai descobrir sabores antigos, mas sempre atuais. Bom domingo!

quarta-feira, 7 de março de 2012

Mandioca com feijão



A maré de presentes continua...Agora, foi o Marcelo que chegou aqui em casa com o feijão manteiguinha de Santarém e uma farinha de tapioca, lá da Paraíba, prá lá de boa. Junto com a notícia de que vai embora, cozinhar no sul da França por seis meses. Desconfiei que os presentes foram para compensar a ausência prolongada que vem por aí. Vou sentir saudades, mas estou fiquei feliz por ele. E o feijão, que parece um fradinho, só que menor, é diferente do primo-irmão, pois dá um caldo grosso e saboroso.


Já a farinha de tapioca foi para  frigideira e deu sustentação a muitas invenções de recheio: com queijo fresco Balkis e flor de sal temperado com ervas, com queijo gorgonzola, com manteiga...mas, também serviu para uma experiência interessante e gostosa, apesar de polêmica, inspirada em umas fotos que vi ontem a noite com a Tanea. Temperei legumes com pimenta e castanha em um refogado bem saboroso. Deixei esfriar e misturei com a farinha de tapioca, Aferventei rapidamente (branqueei) umas folhas de couve. E, envelopei a mistura de legumes e tapioca nas folhas de couve. Passei azeite nas folhas. E assei. Resultado: acho que pareceu comida indígena. A goma da tapioca liberou todo o amido, grudou e vitrificou tudo. Eu gostei bastante. A Talita disse que era bom prá comer pouco (um jeito de dizer "não gostei muito, não"), a Adriana curtiu, meu marido ficou em dúvida entre 'gostei, pero no mucho' e 'hum, gostei, sim!', e esqueci de recolher a opinião da Rose. Mas, eu mesma, gostei. E olha eu de volta e às voltas com mandioca. Não tem jeito, adoro tudo que se relaciona com ela. Lembrei que, afinal, em algum pedaço da minha linhagem genética tem um gene indígena. Bem que poderia sobrar a memória da inventividade e habilidade em lidar com a 'rainha do Brasil'...O resultado não foi o que eu esperava nem o que vi nas fotos da Tanea, mas foi legal!

sábado, 3 de março de 2012

Cogumelos morchella, feijões brancos, tamarillos, lulos e cacau colombiano

Minha semana foi intensamente preenchida por presentes gostosos. Segunda-feira ganhei da Paulinha querida cogumelos e feijões franceses que a mãe dela estava comercializando lá na creche onde trabalha. Queria anunciar aqui para vocês poderem experimentar, mas parece que o sucesso foi tão grande que já acabou...Os cogumelos são da espécie morchella e estou fazendo para o almoço de hoje. Os feijõezinhos são brancos e pequenininhos, lindos e nunca tinha visto antes. Quando forem para o prato aparecerão prontos por aqui também.
Terça-feira a Tanea apareceu trazendo a minha marmita com jaca caramelizada (delícia), e com os feijões do 'espírito santo' lá de Belo Horizonte. Eles são lindinhos e tentei fazer a foto para vocês verem, mas o close da minha máquina desfoca no centro.
E depois veio o Fernando trazendo os deliciosos tamarillos, a lulo ou naranjilla, o cacau em barra, café, ele mesmo e um pouquinho da Marcela, minha filhota que já está há algum tempo rodando por esse mundão de meu Deus...Estavam juntos lá na Colômbia e ele voltou com os presentes. Os tamarillos eu já conhecia e já tinha feito de outras formas. Tinha lá no quintal de uma outra casa em que a Tanea morou em Gonçalves, Minas Gerais. Mas os tais lulos ou naranjillas nunca tinha visto, não. Parecem caquis duros mas o sabor é bem diferente. Dele, parece que se fazem sorvetes, fermenta-se para fazer vinho, cozina-se em quesadillas e congela-se a polpa para o suco. Ele fez prá gente o suco das duas frutas como aprendeu lá: dois tamarillos e um lulo, gelo, água e bem pouco açúcar: delícia! Enchemos de gelo e debaixo do calor escaldante daquela tarde muito quente me empanturrei de suco de tamarillo com lulo e seu sabor entre cítrico, perfumado e levemente amargo enquanto ele me contou um pouquinho do que viveu nesses meses viajando por aí. Disse que eu ia adorar a Colômbia com suas frutas e flores. Acho que eu ia mesmo...

Os tamarillos e lulos que sobraram fiz suco para o almoço de hoje junto com o macarrão com os cogumelos morchella, apesar de ter ficado com a maior vontade de tamarillos maduros grelhados com azeite, sal e queijo burrata. Semana que vem, vou lá no Mercado Municipal para comprar deles e satisfazer meu desejo. Quem sabe até lá o calor amansa um pouquinho prá eu experimentar o cacau colombiano em alguma receita...



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Abra boca e feche os olhos...jaca!

 Voltei da praia com uma jaca no porta malas. Confesso que nunca fui muito chegada em jaca e que só o cheiro dela me colocava a quilômetros de distância. A primeira jaca ninguém esquece e, a minha, foi apenas há dois anos atrás em um ônibus de linha, desses que as pessoas entram vendendo coisas em sacolas plásticas e pedaços de papel, de Chidambaram para Pondicherry, no sul da Índia. De repente me apareceu minha filha Marcela vindo lá de trás do ônibus com o famoso "abre a boca e fecha os olhos". Nem pestanejei e obedeci: era bem firme na textura, levemente adocicada e aromática. Bom. Mas, não sabia o que era. E era jaca! Dura. Gostei. Depois experimentei o tal pastel do palmito da jaca lá na Chapada Diamantina, de tirar o fôlego. Que é feito da jaca verde e, segundo o que entendi, do palmito, ou seja do centro dela apresentados fritos ou assados.
Fui prá minha primeira aventura e produzi uma moqueca com a fruta e uma farofa com o caroço, que prá mim, foi o melhor. Como estou chegando agora no assunto descobri na faca que a minha jaca não era dura nem verde, estava prá lá de macia e os caroços soltaram todos no cozimento. Descaquei-os e cortei como se corta uma castanha do pará. Fritei no azeite e coloquei na farofa com ora-pró-nobis. Ficou uma delícia.
E a moqueca? Bem a moqueca ainda precisa de acertos. Não tinha nada na geladeira depois de dez dias fora. Faltou coentro, com certeza, e a pimenta faltou também em quantidades muito maiores. Estreei minhas próprias folhas de curry, mas faltou. Ficou boa, mas doce demais para o meu paladar. Ainda vou corrigir. Como disse o meu marido, passou com 7, mas a nota de corte aqui em casa é alta.
Aí, sentei no computador e fui espiar o que o goolge tinha a dizer. Claro que no Come-se, blog da Neide Rigo, além de muitas receitas, encontrei a resposta para o grude da jaca: ela é lipossolúvel, então, unte com óleo a faca, além da própria mão e não deixe o grude dela atrapalhar suas experiências. Coloque o preconceito de lado, brinque de "abre a boca e feche os olhos" e descubra que pode até gostar dessa fruta asiática que parece muito como se fosse originariamente brasileira...mas não é!
Eu só estou no começo das minhas descobertas com ela. E você, se anima?

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Depois da quarta feira de cinzas


Me deixei ficar na quarta feira de cinzas...estou na praia até domingo. Meu marido tirou dois dias de férias, e eu, também. Resolvemos ficar. O dia foi lindo, com mar azul e as estradas bem calmas...Vim carregada de ingredientes porque fazer compras no carnaval, na praia, ia ser ruim.
 Mas, sempre esqueço que ‘meu querido amigo Afonsinho’, como diria Gilberto Gil, come como uma criança pequena: muitos desgostos alimentares. Ele acaba comendo o que eu faço e, até mesmo, às vezes, gostando. Então resolvi fazer em especial prá ele. Na quarta de cinzas me despojei de temperos e fiz um purezinho de mandioquinha cozido só com alecrim, alho porró, salsão e salsinha. Amassei com pasta de queijo tipo cottage Balkis e cobri com espinafre na manteiga e limão e berinjela grelhadinha. Sempre gostei dos sabores fiéis a coisa que está em questão, mas a gente tende a complicar: cabeça de cozinheiro curte experimentar. Essa experiência foi ótima. Ele gostou e eu também. Lembrei como é que se apresentam ervas para crianças e que delícia é quando elas apreciam.
Depois de tudo pronto ainda falei com minha filha mais nova que me contou que lá na Colômbia, no vilarejo em que ela está todas as pessoas desenham uma cruz com cinzas na testa por conta do início da quaresma. Com comidas especiais. E prá mim, foi especial purê de mandioquinha bem simples. Até que a páscoa chegue com suas necessidades...

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Cacau crocante e outras delícias baianas

semente de cacau orgânico
 Na sexta-feira, véspera de carnaval, minha campainha tocou e recebi presentes: geléias, chocolates, jaca passa e cacau crocante. Gente, que delícia! Minha baianinha querida, Patrícia, me enviou lá de Itabuna. Todos os produtos fabricados na própria fazenda de cacau. Tudo orgânico e gostoso.  Uma beleza.
Imediatamente pensei em fazer o cheese cake de cacau e colocar a receita no site, mas como fazer para que as pessoas tenham acesso à essas delícias?


Pensei que esse país é gigante e que a gente mal se conhece. Como podemos nos privar de tantas coisas tão boas, como podemos não conhecer essas iguarias tendo nascido e crescido por aqui? Levando-se em consideração as dimensões do Brasil tem coisa demais que a gente nem suspeita , mas se chegou prá mim, chegou prá vocês também. Taí, gente: a semente do cacau seca e coberta com açúcar orgânico. Além de todo o valor nutricional do cacau, o negócio é bom demais: amargo por dentro, crocante e doce por fora. A jaca passa não fica atrás e a geléia de cacau com gengibre se presta à muitos fins.: experimente fazer um molho de salada só com ela, soyu e limão. Não vai acreditar no resultado. É incrível.
A Talita chegou aqui em casa, enloqueceu no cacau crocante e dei tudo prá ela levar para mais pessoas poderem experimentar. Agora ela está viajando, mas sei que não vai se importar de eu colocar aqui a foto que ela fez: é prá mostrar prá mais gente!
E se você quiser desfrutar dessa delícia, já falei com a Pat, escreva que ela  te entrega em casa. Assim como fez comigo. Sua campainha vai tocar e as delícias vão chegar. Anota aí: patriciavianalima9@gmail.com.

Vamos juntando coisas boas: cheese cake de ricota Balkis com geléia de cacau e cacau crocante. Burrata com molho de shoyu e geléia de cacau com gengibre. E o que a sua cabeça carnavalesca puder ir inventando...de repente, sei lá em que parte desse imenso Brasil você está e o que é que descobriu por ai.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Gorduras no bolo


Teve almoço de aniversário aqui em casa nesta semana. Como sou a cozinheira oficial do pedaço, recolhi os desejos do aniversariante e me pus a realizá-los. Gosto disso, então estava me divertindo até  lembrar que eu ia precisar fazer um bolo. Sempre me esqueço dessa parte, aquela pela qual eu deveria começar e, como me empolguei nas outras preparações, lembrei dela lá para o meio do caminho.
Aí eu já estava adiantada com panelas em processo, fogo acesso e tudo, quando me dei conta que a manteiga tinha acabado: nem pensar em sair para comprar nada! Resolvi ir juntando as gorduras disponíveis: um pouquinho de manteiga, umas duas colheres de nata Balkis e um tanto de azeite para completar. Fiz o bolo de pera com amêndoas e feliz da vida porque tinha semente de papoula para colocar nele. A venda da semente de papoula foi proibida há alguns anos atrás, mas toda vez que viajo e encontro delas trago para mim, e para os amigos cozinheiros.
Confesso que quando coloquei o bolo no forno pensei : 'seja o que Deus quiser', mas o princípio estava certo: tinha gordura suficiente. Eu só não sabia como o sabor da pera ia 'conversar" com aquela mistureba que eu fiz. O resultado foi que eles ficaram amigos! Gorduras variadas se entenderam dentro do bolo e deu tudo certo. Eu e o Pedro fizemos a calda com licor de amaretto e colocamos amêndoas laminadas por cima de tudo. E pronto, tinha bolo gostoso com champanhe. Se quiser repetir, talvez não saia...mas aprendi a lição: nunca descuide das gorduras na geladeira porque você pode precisar delas. E se as de dentro da geladeira não forem sufucientes, pode ir firme nas de fora dela: se forem boas, claro!
Falando em gordura ontem o Bruno Stippe contou que na cantina dele só tem usado nata Balkis no lugar do creme de leite para preparar o molho bechamel. Disse que depois que experimentou uma vez passou a fazer sempre, porque o resultado é incrível. Imediatamente pensei que precisava colocar essa informação aqui.. E vamos dormir que amanhã tem mais.