terça-feira, 10 de abril de 2012

Mercado na madrugada


São Paulo é considerada a capital da gastronomia na América Latina: pela quantidade de possibilidades de experimentação que oferece, que é mesmo grande, porém, como já falamos aqui, cara.
Tirando a Europa, onde o euro faz com que tudo fique mais de duas vezes à frente do nosso poder aquisitivo logo de cara, pelo resto do mundo a comida é muito mais barata que no Brasil, de forma geral. E, me parece razoável que seja assim. Então, sempre que viajo um pouquinho volto achando isso tudo muito sem noção, em termos valorativos.
Mas, olha só que notícia boa. Vários chefs tiveram a iniciativa de criar uma opção a mais no imenso mercado gastronômico da cidade. Chama-se Mercado, e vai ser uma feira noturna onde eles irão oferecer comidinhas gourmets simples a preços bem acessíveis. Os chefs da cidade têm propostas diferentes para o que entendem ser 'comida de rua', e o leque de possibilidades é grande: de cebiches a samosas vegetarianas, passando por sanduíches transados.
O dono do Sal Gastronomia  cedeu o pátio do seu restaurante para o evento que irá incluir intervenções artísticas junto com a comilança. Começa as 23h30 e vai até as 5h, para alegria dos notívagos. E, ninguém paga nada para entrar, só o que e se consumir.
Não é muito legal? Adorei a ideia de valorização da cultura gastronômica de rua junto com intervenções de vários tipos de manifestações artísticas aliadas a democratização dos preços. A cidade e os cidadãos ficam mais felizes com a iniciativa de uma dúzia de gente inteligente.
A princípio o evento vai acontecer uma vez por mês. Começa agora, no 21 e 22 de abril. Os preços das comidinhas vão variar de R$5 a R$20 e o Sal Gastronomia fica na rua Minas Gerais, 352, no bairro de Higienópolis, em São Paulo.
Se você é baladeiro, gosta de conhecer coisas novas ou simplesmente é insone, esta aí uma nova possibilidade criativa para a fome na madrugada: vá ao Mercado!


Bem que poderiam colocar suco de frutas exóticas. Eu iria lá só por isso. Olha essa, que chama curuba parece uma bananinha pequena por fora e um maracujá por dentro. Toma-se batida com leite e o sabor é cítrico, doce, refrescante e muito perfumado. Originária da Colômbia. Acho que eu mesma vou abrir uma barraquinha de sucos exóticos na Mercado prá satisfazer a minha própria vontade...

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Coelho da Páscoa?!



Acaba que na páscoa o brasileiro é um pouco português: o bacalhau impera soberano. Não por conta da tradição de não se comer carne na sexta-feira santa, mas no próprio domingo é ele que, agora vai para a mesa. Acompanhado de vinhos e bolos à base de ovos. É interessante esta característica, eu acho. O paladar do brasileiro é tão plástico, cabem tantas adaptações, que tudo acaba sendo bem-vindo. Na falta de tradições (somos um país-bebê), esta é uma das poucas que "pegaram".
Mas, o grande mistério da páscoa, para mim, é como o coelho entrou na história, trazendo o chocolate, que é um ingrediente originário da América Central. E olha que o chocolate não caiu nas graças do paladar espanhol logo de cara. Foi só quando Fernão Cortez, conquistador espanhol, se infiltrou na realeza asteca e se deu conta da enorme quantidade de cacau consumida pelo imperador, é que resolveu levar a iguaria para a corte espanhola por volta de mil quinhentos e tralálá... O ovo de páscoa eu entendo como símbolo de renascimento. Como a páscoa é um momento de júbilo, colocar o chocolate no ovo ao invés de ovo, ovo mesmo, aumenta a alegria! Mas, quem disse que o coelho era o portador? 
Historicamente, a páscoa e os ovos são uma tradição pagã da Mesopotâmia, de mais de 2000 anos antes de Cristo. Ovos pintados eram escondidos nos bosques para que as crianças fossem encontrá-los, enquanto os fornos assavam pães doces aromáticos em honra a ressurreição do Deus Tammuz, resgatado do mundo subterrâneo pela Deusa Isthar. A festa, inclusive, levava o nome dela.
Cristianizar símbolos e festas pagãs foi uma prática comum. Então, do paganismo ao cristianismo, um passo. Dos ovos pintados aos de chocolate, outro. Mas e o coelho? Será que é porque ele é símbolo de fertilidade? 
De qualquer forma é uma festa onde a comida, mais uma vez, cumpre seu incansável papel: agrega, diverte, educa e congrega. Sempre.
O meu bacalhau (a Kelly pediu, está grávida e desejo de grávida é ordem aqui em casa), vai ser brandade com creme de leite Balkis. Seja como for que você vá comemorar a páscoa, espero que ela seja muito boa!

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Ásia sustentável na Colômbia



Fui a Bogotá e acabei na Ásia. Em um lugar muito bacana chamado Wok, que é uma rede com sete restaurantes espalhados pela cidade. Tudo que comi era delicioso. E a apresentação, idem. A comida passeia pela Ásia de forma criativa e utiliza a inteligência colombiana para elaborar um cardápio lindo (vale a pena olhar). Lá se privilegiam os ingredientes nacionais, que são todos obtidos de fornecedores de diferentes lugares do país. Eles vêm de comunidades de pescadores, que pescam sem utilizar rede e não
comercializam espécies ameaçadas, por exemplo. O leite de coco é da produção artesanal de trinta e duas famílias, a cúrcuma é orgânica e por aí vai. Com este conceito, o restaurante se abastece apenas de produtos frescos, e garante a compra e a subsistência de pequenas comunidades envolvidas no plantio, cultivo de brotos, pesca consciente etc. A elaboração do cadápio foi superfeliz na utilização disso tudo, o restaurante fervilha de gente, e o produto final é pura festa


Experimentei o waki de  tomates com aspargos salteados, abacate, queijo campesino (aqueles vendidos embrulhados em folha de bananeira); um rolinho com tofu defumado, shitaki, macarrãozinho cabelo de anjo e molho agridoce; um curry de legumes; e um suco maravilhoso de abacaxi com tamarindo, gengibre e pimenta.
E o melhor de lá, e pior para a vida real daqui: não era caro...E viva a Camila que me deu todas as dicas de Bogotá!


terça-feira, 27 de março de 2012

Uma feira na Colômbia



Ela estava anunciada desde que cheguei na cidadezinha de Villa de Leyva,  rodeada por montanhas e com estrutura própria para o seu acontecimento: todas as semanas no ponto mais alto do "pueblo", a feira. A vista é esplêndida e o acontecimento também.
Comidas típicas, queijos campesinos enrolados em folhas de bananeiras, muitos tipos de feijão, outros tantos de milho e muitos de batatas. Sem falar das bananas, frangos cozidos e totalmente amarelos vendidos dentro de cestas, barracas de chapéus, galochas e lãs grossas para tecer. As frutas são um capítulo à parte e muitas delas nunca vimos por aí: lulo, feijoa, curuba, uma pitaia amarela espetacularmente doce e graviolas gigantes.

Não sei o que era mais bonito: se os ingredientes, as pessoas, o ambiente ou a paisagem. Os feirantes vêm de perto e de longe e começam a montar a feira as três e meia da manhã. Suas feições são indígenas. E, enquanto trabalham, se alimentam dos caldos típicos vendidos na própria feira.
O que eu mais gosto de ver quando viajo é como a vida acontece de verdade, e essas histórias de realidade estão sempre nos mercados, nas feiras, nos supermecados.

Nossa compra, (minha e da Marcela), resultou em uma sopa de cogumelos com quirera de milho, queijo derretido dentro dela e umas microbatatinhas roxas que eram muito lindas. E em muito conforto para nossa alma.

quinta-feira, 22 de março de 2012

La primera arepa no se olvida ou a primeira arepa ninguém esquece...


Nunca na vida imaginei vir para na Colômbia. Agora estou em Villa de Leyva depois de ser calorosamente recebida pela Aura, o Tomas, a Yasmim e a Marta em Bogotá. Sem falar da alegria em rever a Marcela, que me recebeu com chocolate artesanal feito por uma amiga.
Fomos quase que diretamente para o supermercado comprar os ingredientes para fazer arepas com queijo, um prato típico que está espalhado por toda a Colômbia. Nas ruas, cafés, casas, praias e montanhas.
Há tempos não me divertia tanto na cozinha. Não exatamente com a comida, mas com as palavras. Espanhol é uma língua engraçada. E, entre jarras e sucos comemos as arepas (experimente dizer jarra em espanhol apenas para fazer um teste), que são feitas de milho branco ou amarelo. Os milhos ou chocolos, como são chamados aqui, aparecem em enorme variedade. Em Bogotá compramos a farinha industrializada, mas a Marcela contou que já fez arepas só com milho cozido e moído junto com o queijo. Depois se faz uma tortilla recheada, ou não, assada na brasa, na grelha ou em uma chapa especifica para elas. E isso faz com que o sabor final mude muito.

A que aprendi na cidade grande era receita da Yasmim, orientada pelo Tomas, cozinheiro de primeira viagem. Era deliciosamente divertida e tinha farinha para arepa, manteiga derretida, água quente, sal e queijo. Inesquecível. Gracias, queridos!


domingo, 18 de março de 2012

Alho Negro

                                     

Antes de ir embora para Colômbia ao encontro da minha filhota ganhei mais um presente: alho negro da Marisa Ono. A Talita foi com a Nana (duas flores juntas) ao encontro de uma senhora que faz soba artesanal. Me contou emocionada que esticou a massa do tal soba feito com trigo sarraceno e, de quebra, ainda ganhou alho negro da Marisa Ono e, oba,  me deu uma cabeça de presente. Segundo a definição da própria Marisa, " o alho negro é o alho comum que passa por um processo de maturação, alterando sua cor, seu sabor e aroma. Consumido no Japão como suplemento, devido às suas propriedades fitoterápicas, passou a ser visto como ingrediente gourmet, principalmente depois que Ferran Adriá inclui-o  em um dos seus cardápios".
Pois bem, todo mundo sabe que não sou fã de alho mas esse aí era digno de experimentação: cortei cheirei e passei um pouquinho dele no pão com azeite já que é cremoso como queijo. O sabor é suave, levemente adocicado e ao mesmo tempo tem uma personalidade forte. Adorei. Quem quem já fez diz que eai bem com massa, com risoto, como entrada, puro. E tem um poder super antioxidante. Se você se interessar leia mais no blog Delícia da Marisa Ono onde ela conta tudo sobre a iguaria e como fazer para comprar e experimentar dele.
As minhas experimentações vão ficar para a volta. Quem sabe dá para juntar produtos colombianos ao alho negro...

terça-feira, 13 de março de 2012

Restaurant Week

Para quem não está a fim de gastar muito dinheiro, mas gostaria de conhecer a comida de alguns restaurantes de São Paulo, aí está , de novo, a oportunidade: o restaurant week vai até domingo, dia 18.  A iniciativa, que já está prá lá de consolidada nas grandes cidades brasileiras, traz um leque enorme de restaurantes participantes. Mas, a verdade é que nem todos valem a pena. Primeiro, pela comida mesmo, que na maioria deles tem nada de novo, nem como experiência gastronômica, nem como apresentação, nem como serviço. E não chamo de bom serviço nenhuma frescura desnecessária e constrangedora, mas simplesmente atenção, gentileza e propriedade no saber com o que se está lidando. 
Na semana passada fui almoçar no Carlini da Vila Madalena. O Pedro comeu um sorrentini de vitelo com molho cremoso de páprica e eu e o Tadeu, torteli de abóbora, ricota e parmesão na manteiga de sálvia e queijo parmesão. Eu e o Pedro preferiríamos a massa mais ao dente. Já para o Tadeu estava no ponto certo. Gosto não se discute. Mas, estava gostoso, apesar de não ser nada demais. Todos nós, porém, estavávamos de acordo em relação ao sorvete da sobremesa "peras assadas em especiarias e sorvete de creme". A pobre da pera estava bem gostosa mas, não tinha um acompanhante a sua altura...o sorvete era doce demais, já meio derretido. E o serviço estava em um mau dia (seis atendentes discutindo seus problemas em volta do balcão, enquanto a gente tentava fazer contato com um deles para saber o que é que estava acontecendo com a nossa simples salada que não chegava nunca e que, quando chegou, faltava o abacate em uma delas...). É pessoal, vida restaurante não é fácil, não.
Mas, este foi só um exemplo de que nem só de glórias vive o resrtaurant week. Se quer mesmo conhecer alguma coisa diferente e criativa, não arrisque. Aproveite, e vá lá no Tordesilhas comer a comida da Mara Salles, por exemplo. Certeza que você vai adorar o jeito como ela traz para frente o ingrediente e a energia da cadeia de gente que faz deles, geralmente, sua vida.