quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O ritual da comida



Terça-feira passada, às oito horas da manhã , em São Paulo, os termômetros na rua marcavam 29 graus. E às onze, 40. Tinha ido  dar aula, e foi no meio dela que, de repente, estava no terraço do apartamento da minha aluna comendo deliciosas jabuticabas no 12º andar. No pé. Ela plantou duas jabuticabeiras em vasos  e elas estão lá, produzindo. Não é incrível a vida na cidade grande e a modernidade? Hoje em dia você pode morar nas alturas e ter jabuticabeiras na varanda. Não sei se vai dar prá subir no pé, ficar lá em cima sentindo o ar perfumado das outras árvores frutíferas do pomar, mas que dá prá comer delas com os pés no chão, isso dá. O sabor da fruta  me trouxe o frescor do vento, dissipando o calorão. Por um segundo estava em cima da árvore, sonhando acordada.
Aí, ontem, fui assistir um documentário sobre um templo indiano onde 100 mil refeições são produzidas e servidas diariamente. Imagine um exército de gente dividido em alas de ingredientes: ala dos descascadores de cebola, do alho, de ervilhas etc. Todos sentados no chão, descascando. E tem também os recolhedores disso tudo com suas cestas. E os cortadores. E os recolhedores do que foi cortado que, finalmente, encaminham tudo para os cozinheiros. Que cozinham em panelas gigantes.Que precisam ser limpas direitinho  depois de tudo acabado. São tão grandes que para esfregá-las é preciso entrar nelas...O melhor são os fazedores de chappatis, o tradicional pão indiano, que não pode faltar nas refeições. É assim: ao redor de várias massas gigantes tem gente que faz e arremessa bolinhas . Em frente a umas pedras cheias de farinha  outros recolhem  as bolinhas e as abrem com um cilindro de madeira. Em uma  chapa quente ficam os viradores de lado, os arrumadores de espaço e os retiradores de chappatis das chapas. Eram, claro, várias chapas. Prá não contar da hora de servir e lavar os pratos. Coisa de maluco! Pude sentir o cheiro dos chappatis quentinhos, de novo, sonhando acordada.
E aí, ligando os pontos da jabuticabeira no 12º andar com os sikhis da Índia pensei que, no que diz respeito à comida, o céu não é o limite. Todos os esforços da inteligência e da logística se colocam a serviço da produção de um momento de felicidade. 
A foto da jabuticabeira a Cris fez. "O ritual da comida " é o nome do filme. Se você gosta do assunto vai se encantar.

sábado, 27 de outubro de 2012

Alcachofras, flor e fogo



Ainda bem que a Terra gira em torno do sol. Claro que sem isso tudo seria muito diferente, mas eu adoro quando o giro chega, de novo, na época das alcachofras. Engraçado como quando a gente é criança fixa um certo tipo de conhecimento junto de uma emoção e vai embora com elas vida afora. Assim é comigo e as alcachofras: lembro do cheiro das flores cozinhando no molho de tomate dentro da panela de ferro grande da minha mãe. E da família reunida comendo flores. No meu universo infantil aquilo era engraçado e muito aconchegante. Sentia um misto de alegria, leveza e confiança na vida que ficaram fortemente impregnados em mim e definitivamente associados às alcachofras.
E hoje, conversando com o Sérgio, ele me contou do livro que está lendo e que associa muito da evolução dos antecessores da espécie humana ao começo da atividade de cozinhar os alimentos. Que foi depois da descoberta do fogo propriamente dito. Imediatamente lembrei delas, as alcachofras. Segundo o Sérgio, o autor do livro proclama que o cozimento dos alimentos aumenta significativamente a absorção dos nutrientes  pelo organismo em contraponto aos alimentos crus.  Os crugíveros  sustentam que a ação do fogo destrói a energia vital dos alimentos e que, portanto, devem ser comidos crus. Mas, essa é a natureza humana: descobre coisas contraditórias o tempo todo, se agarra a elas, constrói teorias e comportamentos e segue a vida.
Simplificando as coisas é o seguinte: aproveite que a Terra chegou no tempo delas, que já dominamos o fogo que cozinha as alcachofras e divirta-se comendo flor! Com quínua e queijo que nem eu, com pão, com molho com o que seu banco de afetos e memórias tirar da cachola. E se não gosta delas, experimenta de novo! Quem sabe o encanto vem dessa vez.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Pirulito de batata rosti: porque criança gosta de comida boa, sim senhor!



Na semana passada estive envolvida na preparação de uma festa para crianças/adolescentes e continuo firme na ideia de que as crianças só não comem de maneira mais saudável e agradável, porque não foram apresentadas às muitas possibilidades que contemplam isso.
Não sei se estou certa ou errada, mas o pirulito de batata rosti acabou e eles comeram bem o mini-hambúrguer de soja - receita da Helena Rizzo do restaurante Mani -, que , segundo a turma do preparo da festa é um "pf" disfarçado de hambúrguer: gengibre, arroz integral, soyu, gengibre, couve flor e mais algumas coisas que não me lembro, e que entram no preparo. Comeram sem saber o que era porque também não estavam interessados nisso, mas comeram entusiasmadamente. Claro que pipoca e brigadeiro (muitos deles: de paçoca, chocolate com menta, maracujá e avelã), também estavam lá porque nem tudo é do mal. Mas, não tinha fritura para criança, nem pizza, nem salgadinhos e afins. Tinha comida de criança, mas da boa. E eles curtiram.


Acho que as crianças estão vivendo um momento histórico difícil: ao mesmo tempo maravilhoso e destrambelhado. Como todos nós, moradores das cidades grandes, as crianças são cotidianamente bombardeadas por um volume absurdo de informações e apelos consumistas. E esses apelos incluem as coisas relacionadas com o alimento. E,os pais, na maioria das vezes, não têm tempo para cuidar de suas próprias alimentações, que dirá da dos seus filhos, que comem na escola, o que tiver, rapidinho entre uma atividade e outra. Fiquei contente com o resultado da festa, mas refleti bastante a respeito da educação para o corpo e o alimento nos dias de hoje...
Aí, no domingo minha neta veio 'almoçar' aqui. Está linda e hoje faz 4 meses que chegou no mundo. Claro, só mama, o alimento completo e está indo muito bem , obrigada. Mas, tem um vívido interesse pelas comidas que já fazem parte do seu mundo visual, pelo menos. Quando vem aqui em casa é sempre na cozinha e em volta da mesa que a gente se encontra. E, desde que passou a levar a mãozinha em direção àquilo que 'pisca' prá ela, reparei que pratos e alimentos chamam sua atenção. Domingo foi a primeira micro-experiência com sal. Tinha escondidinho de cogumelos  e a Kelly passou o dedo no purê de mandioca  e levou na boca da pequena Marina. Imagine uma paleta de sons e expressões variadas com inequívoca sensação de apreciação partindo de um pequeno ser que, pela primeira vez na vida, experimenta um sabor totalmente novo...foi assim. Um espetáculo a parte. E aí, toda a minha preocupação com a alimentação das crianças se desfez. É simples. É mesmo só apresentar que eles vão saber escolher entre muitos sabores disponíveis os que mais lhes agrada...e a vida vai ficar mais divertida e interessante que monótonos salgadinhos e refrigerantes sem valor nutricional e cultural nenhum...
Já "vi" a Marina maiorzinha entrando pela minha cozinha e abraçando as minhas pernas, pronta para muitas brincadeiras culinárias. E, certeza, mandioca vai fazer parte das preferências do paladar dela, porque, depois de esgotar o dedo da mãe com o purê, só foi para de chorar quando carreguei a pequena para bem longe da mesa...

sábado, 6 de outubro de 2012

Meu pé de vinagreira...



Meu pé de vinagreira deu flor. Quando fui para o Maranhão, no meio do ano, ganhei umas sementes e já tinha usado um pouco das folhas que ganhei da Tanea, há muitos anos atrás, quando ela ainda morava em Gonçalves. Agora ela foi-se embora Minas adentro e está aos pés da Serra de São José, em Tiradentes, com seu estrelado restaurante Kitanda Brasil.
Tinha feito uma conserva com as folhas, que são azedinhas e temperam bem muitas coisas. Como tinha ganhado só um pouquinho, queria plantar no quintal e fazer as folhas refogadas, porque lá no Maranhão comi dela no feijão, mas pensei que com quiabo e jiló devia dar samba.
Quando vi minha florzinha fiquei feliz da vida. Lembrei da Amanda no meio da roça de mandioca pegando as sementes prá mim, linda, nos seus 8 anos de sabedoria!
E eu, nos meus 50 de ignorância, fui procurar na internet que fruto será que sairia daquela flor tão delicada. Um assunto desse tem endereço certeiro: o blog "come-se", da Neide Rigo. Não é que descobri que a minha delicada florzinha vai virar uma groselha? Sabe, daquelas que nesta época começam a aparecer em alguns supermercados, no Ceasa e na feira? É um pouco ácida e dá um suco gostoso, mas tem quem goste do chá. Eu não gosto de nenhum chá vermelho, mas em tendo minha própria groselha vou tentar. A Neide dá várias idéias de preparações que podem ser coloridas com ela, olha lá. Mas, o que mais me encantou foi  saber que agora, além das folhas da vinagreira que tenho no quintal, tenho também,  flores delicadas que vão   dar lindas rosélias, grosélias, hibiscos, bissap, quiabo-de-angola, caruru-da-guiné ou outro nome qualquer que ainda desconheço, mas pelo qual elas respondem. Ganhei vinageira que deu groselha! Vivendo e aprendendo, sempre! Pensava que eu tinha uma coisa, e tinha duas! E as duas de comer!





quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Tradições e sopa



Acho que vou virar meteorologista...A primavera chegou e as temperaturas despencaram. Semana passada no calor de 35 graus do final de inverno eu disse bem isso aí...
Passeando naquele calorão da semana passada pelo "Revelando São Paulo", que aconteceu lá na Vila Guilherme, diante de vários caldinhos típicos pensei na minha sopinha, que hoje, diante do frio, vai acontecer! O "Revelando São Paulo" é um evento que não é novo, não. Neste ano comemorou 15 anos de existência trazendo para a capital gastronômica do país as comidas típicas do estado todo. Este ano foram mais de 200 municípios que vieram mostrar suas culinárias, artesanatos e manifestações maiores como apresentações das "folias" do dia de reis e do divino, entre outras apresentações culturais marcantes da riqueza que é o interior. E sempre, sempre, sempre, toda vez que pessoas se juntam para celebrar alguma coisa, a comida vem junto: é um único fenômeno.O sucesso do Revelando revelou uma multidão de gente que foi no Parque do Trote. Cada vez mais gente tem interesse em saber o que se passa com os vizinhos de estado, de região, de país. O mundo com muito mais comunicação possibilita isso. E é uma beleza, eu acho, a gente poder se reconhecer como povo no bolinho de chuva comum na infância de uma enormidade de paulistanos, ou no "buraco quente" presente nos aniversários de gente que não acaba mais por este estado de São Paulo.
Meu sonho é ter um fogão a lenha na cidade. Lá, tinha biscoitinho de nata, café moído e passado no coador na hora e tudo aquilo que o paulistano adora no café da manhã. Porque, o nosso galo não canta muito mais por aqui, mas a padaria é a nossa praia, logo cedinho, antes do trabalho, ou no meio da manhã para encontrar um amigo, na hora do almoço para um lanche rápido ou mesmo para almoçar, no meio da tarde para uma broa com café, ou no final do dia para uma sopinha reconfortante. Isso, que hoje achamos na megalópe tem origem no interior do estado de onde afluíram milhares de pessoas com seus hábitos. A cidade é louca, engole a gente com seu ritmo mas, temos refúgios em várias esquinas. Para um paulistano é estranho lugar que não tem padaria...
Bom minha gente, o frio voltou e vou aproveitar e fazer sopa de ervilha vermelha com coentro e cenoura com queijo cottage temperado com ervas porque a tradição pode ser reinventada incansavelmente! Até mesmo quando novas temperaturas revelam tão drasticamente as bobagens que nós, seres humanos andamos aprontando no planeta...aiaiai!



quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Corações e inverno quentes



A semana passou e eu nem vi. No começo dela me contei a história que "iria" várias coisas, mas agora, sexta de madrugada, vi que ainda estou devendo muito prá mim mesma, e que não vai dar mais tempo.
Em compensação, trabalhei muito satisfeita a semana toda. E, entre tudo que fiz, esteve um almoço quinzenal ou mensal ( a vida tem dado ritmo próprio à este projeto), que fiz com o Marcelo e a Marcela - que entrou superbemvinda de gaiata neste navio -,  aqui, na minha casa. Cansados de atender aos pedidos alheios, há uns três meses atrás, decidimos satisfazer as nossas próprias vontades: de testar, compartilhar, desestressar e cozinhar por prazer, deleite e interesse profissional também. Então, inventamos da nossa cabeça, anunciamos e abrimos a casa para a festa. Saímos, compramos o que tem, e produzimos uma comida gostosa. Pronto! Simples assim.
O resultado é que, seja qual for o resultado, descobrimos que gostamos de trabalhar com respeito mútuo aos nossos impulsos criativos - que acatamos tranquilamente -, que queremos manter as nossas cabeças abertas para acertos, erros, aprendizados e que é possível fazer isso, sim! Fora, que é uma delícia se sentir dono de si mesmo e ver os amigos conhecidos, e, os desconhecidos que logo se tornam amigos, gostando de experimentar o que nós gostamos de inventar...
De tudo o que fizemos, o que mais gostei foi o pão da Marcela e o sorbet de côco que o Marcelo inventou: com raspas de limão, alecrim e côco fresco. Para o final de inverno com temperaturas de 35 graus, foi a sobremesa perfeita. Também a gente vai ter que lidar com as novidades que o planeta vai apresentando como resposta a tanta bobagem que fazemos por aí. Sorbet de côco bem gelado no inverno e, quem sabe, uma sopa bem quentinha quando a primavera chegar e as temperaturas despencarem? Sei não, minha gente, mas que o final de semana seja de descanso para quem vai descansar e de trabalho bom prá quem vai nele. Eu, por exemplo!

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Lixo que produz luxo!

 
 
 
Para mim, pão sempre foi um mundo à parte. É um assunto grandioso como tudo que faz parte da história desde muito tempo. É tanto conhecimento agregado que, as vezes, não sei se acontece só comigo, mas fico até um pouco deprimida. Sabe quando uma coisa é muita? Muita idéia, muita realização, muito conceito, muito tudo? Fico zonza e o efeito dessa 'zonzeira' é que me desinteresso. Mas, quando não penso tão grande e foco em uma única técnica e receita e me sinto capaz de aprender, incorporar o conhecimento e me apropriar dele, me dá alegria de novo. Será que só eu que sou assim?
Digressões a parte, este post é para contar do pão incrível que ganhei do meu novo amigo, Marcelo "Du Pain" Lopes, um eterno apaixonado por pães. Imagine uma massa muito saborosa e úmida, com um acento levemente doce e  azedo ao mesmo tempo. Imaginou? Era assim. Pois ele  fez um pão de cevada (malzbrot) a partir de um bagaço que ganhou de alguém. Que bagaço, né? Foi a minha pergunta prá ele. É do malte da cevada moída  que, após o cozimento, resulta no malte que entra na composição da cerveja - e é usado como alimento para gado ou adubo, ou seja, não é totalmente descartado nas cervejarias. O Marcelo contou que leu alguns relatos de cervejeiros artesanais, que também gostam de fazer pão e utilizam esse bagaço na produção de pães artesanais. Foi exatamente o que ele fez: adicionou o bagaço à massa do pão para acrescentar sabor e aroma. E, a mágica aconteceu.  Mais uma para a infinidade de possibilidades de se fazer um pão! Porém, um bom pão já é outra história... E, aí, peguei meu restinho de mascarpone, passei naquela delícia e a viagem começou, uma mordida após a outra. Era daquele tipo de pão que provoca expressões de satisfação sonoras enquanto é comido e a sensação de que a vida é simples e absolutamente perfeita!
E quem souber aí onde encontrar bagaço da cevada moída, que é lixo para as cervejarias artesanais que não têm gado para alimentar, avise a gente, eu e o Marcelo, que estamos interessados nele.