segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Inhotim, beleza de ver


Minha vista no almoço, dentro do restaurante Oiticica, em Inhotim
O ano mal começou e Minas já me capturou duas vezes. Fazia uns 4 anos que estava querendo conhecer Inhotim. Exige esforço, não é exatamente "pertin", mineiramente falando. Para chegar é preciso ir para Belo Horizonte, de lá para Brumadinho e de lá para Inhotim. Passando pela falta de sinalização e por estradas em que 30 quilômetros viram uma "viagenzin" de 1hs30.
Que você esquece imediatamente quando chega em Inhotim, que se autointitula museu. O mais interessante é que subverte o conceito de museu. É verdade que as obras de arte estão lá e que as instalações para abrigá-las também. Mas é quando se percorre o caminho entre uma e outra  que se descobre os imensos e maravilhosos jardins de Inhotim, com um paisagissmo que vai de mares de flores à mata, totalmente integrados. Com  flores e folhagens de cores surpreendentes; árvores gigantes de espécies nativas e exóticas com  linhas perfeitas;  lagos verdes e azuis dignos de filme de ficção. E aí, quando em meio a isso tudo você entra em alguma galeria que exponha uma obra realmente boa, ou quando cruza pelo espaço com uma escultura autoral (as da própria natureza são muitas!), se dá conta de que, dentro ou fora em Inhotim, é tudo a mesma coisa. Uma maravilha: íntegro, integrado e em movimento. Tudo  vivo e se transformando a todo momento.
Brumadinho, cidade onde está, é polo de minério de ferro. É um lugar feio, em que a paisagem prima pelas escavações da mineração. Inhotim é o segundo maior empregador de Brumadinho. Forma, desenvolve, incentiva e emprega um batalhão de pessoas que cuidam e recebem uma multidão por dia, já que o lugar é considerado referência internacional em museus. Sem falar na sustentabilidade, no trabalho educacional, etc, etc etc.

Mar de flores
Um empreendimento deste porte sempre vai gerar polêmicas. Dentro de Inhotim existem 3 restaurantes, além de vários cafés e lanchonetes para atender esse fluxo de gente. Tinham me falado que a comida em Inhotim era péssima. Quis experimentar a opção menos gastronômica e aquela que , presumo, deva ser a mais utilizada, já que em um lugar como esse, em que se vai especialmente para ver o 'acervo' , não dá para gastar 3 horas no restaurante. Fui na versão quilo que está pronta. É entrar, sentar naquele prédio maravilhoso com vista para o lago, e comer uma variedade enorme de pratos, que achei super honestos e bem feitos. Inclusive, os bolinhos de arroz apresentados em quenelles bem feitinhas. O que, para quem é do ramo, denota um conhecimento culinário cuidadoso. 
O Brasil costuma não conhecer o Brasil. Se você nunca ouviu falar em Inhotim, vá atrás. Museus maravilhosos existem por aí, é verdade. Mas, com aquele entorno, só lá! E vou dizer: a comida não é ruim não!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Que viva México!



Não vou dizer que os amigos são o chantilly da vida porque odeio lugares comuns e não sou exatamente fã de chantilly. Prá mim, eles são mesmo é a pimenta dela: alegram, acordam, surpreendem, fazem chorar ou rir. Ou, os dois ao mesmo tempo!
O Marcelo é casado com uma querida linda que, de uns tempos prá cá, resolveu surpreendê-lo assim: "não marque compromissos entre os dias x e y". Ele, como bom marido, apenas obedece. E, quando chega a hora, acata entrar, pacificamente, em um meio de transporte até o local onde o embarque desvela o segredo : o destino! Já disse para o Marcelo que queria uma Ale prá mim, também...
A volta da última surpresa deliciosa veio recheada de "montones " de histórias incríveis para contar, revistas de gastronomia e culinária para mostrar as fotos de tudo que o México desvendou prá ele. E, de muito brilho nos olhos, para me contar dos chocolates com o teor de açúcar que você escolhe na hora da mistura junto com o cacau, a canela e as castanhas; do abacate e das pimentas em tudo, tudo, tudo; da disputa territorial entre o mezcal e a tequilla (ambas feitas da agave, uma planta que parece um abacaxi); dos "moles" que são a base de um molho com chocolate, pimenta e o especial, que é o mole "almendrado" com gergelim; dos "adobos" que são muitos e esparramados pela América Central (o Marcelo diz ter notícias de adobos nas Filipinas) que são masalas, ou a mistura de muitas pimentas com gergelim, amendoim e aquilo que a gente nem consegue identificar, mas que é ótimo também. As histórias foram sendo contadas enquanto ele me apresentava tudo isso, que disse serem"mimos" prá mim.


E o que dizer das muitas pimentas? Cheiros, cores, formatos diversos numa profusão que precisa de cartilha. A mais linda se chama cascavel e tem guisos dentro dela que quando chacoalhadas já anunciam a que vêm -os guisos são as sementes -. Deve ser do estilo "corra de mim, se não gostar muito de pimenta!". "A ver", tudo pronto para experimentação.


E, como tudo no México tem história, quando contou que uma boa "salsa" (os molhos que acompanham tudo por lá), deve ser feita na hora, na frente do freguês, claro que minha pergunta foi: "como, numa coisa tipo um pilão?". Resposta: "tipo isso daqui, uma peça asteca, etc, etc.Terminando com "este é o seu presente"! 
Não sabia se ria ou chorava. Imaginei o Marcelinho e a Ale carregando aquele peso (é todo em pedra), dentro da mala e me senti muito querida. Um céu azul se apresentou dentro do meu coração e passamos, imediatamente a combinar como fazer tortillas maceradas no pilão asteca de pedra, um evento com comidinhas mexicanas, dividir a alegria com mais gente.O Tadeu,quando viu, disse que a peça devia ser usada pelos astecas para socar os corações das vítimas dos sacrifícios dados juntos com alguma substância alucinógina para os sacerdotes comerem...
Amigos...são a pimenta da vida! Aí vai minha primeira salsa mexicana numa tortilla espanhola: tomates assados, cebola crua macerada com pimenta.
E, eu e o Marcelo (na verdade, ele, eu só apoio!) já temos uma listinha do que é que a Marcela, que está no México, vai nos trazer para o evento mexicano, sem sacrifícios.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Queijo coalho e algodão doce



 Minha infância foi boa. Tive a oportunidade de correr atrás do carrinho do algodão doce e escolher entre todas as cores de nuvens, minha  predileta:  era a branca mesmo.
A sensação de comer algo que não existia, de fato, sempre me instigou. Era açúcar, sem dúvida, mas desaparecia no contato com a saliva como em um passe de mágica. Os dedos grudavam nos fios de cabelo que por ventura ventassem em direção à boca na tentativa de desfrutar, também, daquele momento incrível.  Minha infância foi lotada desses pequenos prazeres onde todo o universo se concentra em um único ato: comer algodão doce, por exemplo.
Quando, estudando na escola descobri  tudo do que o é possível realizar a partir de açúcar e temperatura, o encantamento foi racional, mas estava ali. Lembrei que o Ferran Adriá envolvia um peixe em flores e algodão doce e tive a certeza de que ele também teve uma infância boa.
E, por puro acaso, outro dia comi queijo coalho com algodão doce feito a partir de açúcar e aceto balsâmico (que, também tem muito açúcar mascavo!). E, de novo, um espanto infantil se instalou no meu paladar. Era ótimo! Não poderia supor que em volta da nuvem caramelo tinha um pedacinho de queijo coalho. Felizmente vivemos na época da internet e aí está o vídeo que explica o processo de fabricação caseira de algodão doce. A sujeira é garantida, mas a diversão também.  Vou esperar minha pequena Marina crescer mais um pouquinho e, sem dúvida, a brincadeira vai acontecer entre duas colheres de pau, um livro e um garfo, ou um fouet velho. Se você experimentar primeiro, me conta. E não esquece de forrar o chão e a bancada também. O grude é grande.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Pastel de angu e doce de leite no ano novo



Acabou 2012! E, um dia após o outro - felizmente -, o mundo não acabou! O que acabou foram aqueles dias que antecedem o Natal, e que , todos os anos, parece, sempre, que o mundo vai acabar.
Espero que em 2013 você aprenda, ensine, cultive o tempo como um prêmio sem valor venal e use dele para fazer aquilo que gosta e acredita.
Terminei meu ano entre a praia e a montanha. Fui prá Tiradentes conhecer o refúgio da minha amiga Tanea Romão, que, depois do festival de Gastronomia de Tiradentes do ano passado resolveu levar seu premiado restaurante Kitanda Brasil prá uma Minas Gerais mais profunda e, muito mais longe. O restaurante está lindo, Tiradentes parece uma cidade cenográfica com a maravilhosa Serra de São José e sua imponente parede de rocha ao fundo e, tenho certeza que os cariocas e os mineiros vão poder desfrutar da criativa e maravilhosa comida da Tanea mais que nós , paulistas, que vamos precisar de um feriado grandão prá poder chegar lá...Mas, o que é bom se espalha e o Kitanda Brasil seguiu seu curso.
Eu vou ter que voltar porque não foi desta vez que consegui experimentar o famoso pastel de angu  feito por eles! A cidade estava lotada e os pastéis de angu desapareceram. Quem sabe da próxima vez a Tanea não realiza o meu desejo com as próprias mãos? Hein, Tanea?
O que eu trouxe para compartilhar com meus amigos da praia, prosaicamente, foi o doce de leite do Bolota. A receita é única: 15 litros de leite para 200 gramas de açúcar. Você não entendeu errado, não. O Bolota é diabético e resolveu contar com a açúcar do próprio leite para se manter firme no doce mineiro mais amado. O resultado é um doce de leite suave e cremoso. Fez sucesso no litoral também. 
Pode testar a receita ( mantenha as proporções se não precisar, como eu, dos quinze litros de leite), mas mexa sem parar, em fogo baixo, durante algumas horas. Chame seus amigos e coma com um queijinho mineiro. É só uma, das várias idéias que já tive, para despor do  mais precioso bem, o tempo, neste ano que começa agora. Que venha 2013 com alegria para todos!



terça-feira, 25 de dezembro de 2012

NATAL CAFUZO: SOTÊCO DE BANANA

Meu natal podia durar mais uns 30 dias. Foi tudo tão rápido, que já quase acabou... meu marido diz que é pecado trabalhar no Natal, mas preciso aproveitar enquanto a Marcela está aqui por mais algumas horas antes de embarcar para a próxima viagem. Chegou dia 21, depois de dois meses pelo desconhecido estado do Espírito Santo, de onde só temos notícias da famosa moqueca capixaba sem leite de coco e sem azeite de dendê...
Pois ela contou que o estado é maravilhoso e, percorrendo um rio que tem lá, desvendou agroflorestas, muitos cultivos inteligentes e gente interessante fazendo, como ela e sua turma, trabalhos importantes para limpeza, recuperação e revitalização do rio Jucu.
São muitas histórias, mas esta ela me contou de lá mesmo, dizendo: "mãe, no seu próximo post você tem que contar sobre o sotêco de banana!". Eu, do outro lado da linha, fiz como você, se não for capixaba, deve estar fazendo agora: "ãh?". Explica-se.: convidada para uma missa afro em Araçatiba, um antigo quilombo, que já foi a maior fazenda do litoral brasileiro, ela comeu o tal sotêco. Apesar de a população atual ser majoritariamente afrodescendente, a origem do prato é indígena, assim como os primeiros moradores da região.
A festa foi animada e, segundo a Marcela, o prato é sensacional. O desenho acima foi feito pelas artistas plásticas do projeto que viajaram registrando tudo com seus olhares criativos e amorosos em coautoria com as crianças da região. O projeto é uma dessas coisas lindas que estão sendo feitas por esse Brasil  afora. Muita energia boa recuperando rios, receitas, comidas, laços antigos, amigos novos.
Aqui vai a receita bem no dia do Natal, para comemorar, brasileirissimamente, a data. Feliz Natal a todos!

Sotêco de Banana:

Ingredientes:
Uma dúzia de banana nanica verde
Um tomate
Uma cebola
Um pimentão pequeno
Três dentes de alho
Tempero verde (cebolinha, coentro, hortelã)
Três limões galegos
Duas colheres de sopa de óleo
Sal a gosto
Colorau a gosto

Modo de fazer:
Descasque as bananas e corte em rodelas. Coloque-as na água com o sumo do limão. Refogue numa panela de pressão o alho, o tomate, o pimentão, a cebola, o tempero verde, o sal e o colorau. Por último, acrescente as bananas e o sal. Cubra as bananas com água e deixe cozinhas na pressão por vinte minutos. Depois de cozido, passe por uma peneira e sirva com moqueca de peixe. Bom apetite.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Comida de marido reformulada!



A nove dias do natal e depois de vários finais de semana trabalhando, ontem tive um daqueles dias de preguiça total. O dia começou e fui passando de uma coisa prá outra, sem presa nenhuma. Até que , de repente, dormi outra vez. E, quando acordei, o almoço estava pronto! Por que eu não queria sair prá lugar nenhum e ele sabia bem disso. 
Meu marido tem perfeita noção de cozinha. Filho de mãe descendente de árabes e pai dono de indústria de alimentos, sempre teve quem cozinhasse por perto. E, quem nasce em ambientes assim, geralmente, tem noção. Ou, pelo menos, alguma imaginação. Ele tem acompanhado meu ritmo de trabalho e, gentilmente, fez o almoço de ontem.
Fiquei feliz da vida com o gesto. Mas, tenho uma característica que, às vezes, é uma grande aliada, quando não é minha algoz total! Minha expressão diz tudo e quando ele 'leu' meu susto foi logo avisando: "não é gastronomia. É só uma refeição saudável!". Rimos juntos porque , literalmente, tudo boiava na água. Acho que de uns anos prá cá ele perdeu a prática por que eu tenho cozinhado demais! No ano novo pretendo deixar que ele se exercite outra vez.
Mas, hoje  depois de tanta preguiça, tive que recriar o almoço dele. E da reforma toda, do que mais gostei foi da couve-flor: temperei com queijo Serra da Balkis e coloquei no forno junto com um bechamel de manjericão com creme de leite. Ficou cremoso, uma delícia!
Quando a intenção é boa o prosseguimento dela só dá prá continuar sendo bom. A comida dele não tinha gosto de nada, mas a intenção era puro amor. A reforma não se ateve tanto na amorosidade, mas o resultado veio na esteira da intenção primeira. 



domingo, 9 de dezembro de 2012

Tempo, tempo, tempo, tempo...





Fechei ontem meu ano na cozinha profissional. De agora, até o final do ano, só converso com as minhas próprias panelas e o meu próprio fogão.Não que eu não goste do meu trabalho, bem ao contrário. Mas, como tudo na vida que tem saúde, tempo é um ingrediente fundamental para as coisas andarem bem. 
Quem não é do ramo não sabe dos bastidores, e, neste final de semana, foi difícil trabalhar em São Paulo: a cidade estava em festa, e tive que locar os talheres em um lugar, as taças em outro, ir eu mesma buscar o fogão e o forno em outro ainda, porque a terceira locadora não tinha condição de entregar...
Tudo faz parte: o primeiro prato, que teve que ser reinventado momentos antes de ser servido, porque não aguentou o calor e o abre e fecha da geladeira ou sei lá o que; as quenelles do sorbet  de rosas sendo feitas dentro do freezer pelo Marcelinho para serem viáveis; as contradições do final de uma semana de produção cheia de imprevistos, que terminou quando abri a porta de saída e senti o beijo fresco da noite que acalmou o calor de dentro da cozinha, com forno e fogão funcionando a muitos graus centígrados.
O perfume do jasmim na noite me trouxe a sensação de refresco que, às vezes, só o distanciamento pode dar. O devido tempo. O abaixar da temperatura, antes de amarrar de novo o cabelo dentro da bandana e o avental na cintura.
Tô de férias. Para cozinhar comidas simples junto com a minha filha mais velha, comer por aí alguma coisa que algum cozinheiro dedicado fizer e servir, esperar minha filhota mais nova chegar de uma viagem e partir para outra, ler meu livro, ter boas idéias, ver coisas bonitas, ficar com a pequena Marina para ajudar o Pedro e a Kelly, que precisa transitar de volta para o trabalho no final da licença-maternidade (como ela ainda é curta e cruel neste país!), poder curtir meu marido e encontrá-lo acordado no mesmo horário que eu, fazer ioga, dar de comer prá alma. 
O final do meu ano profissional teve belezas, como o sorbet de rosas e as tartelletes de abóbora, queijo e azeite de ciboullete. Como já disse o poeta, "tudo vale a pena se a alma não é pequena". Agora, é tempo de parar. E o tempo engrandece a alma.