domingo, 1 de setembro de 2013

Celíacos felizes no café da manhã!



Hoje, é domingo ensolarado. Levantei mais tarde, passeei e só depois é que fui tomar café da manhã. Retirei o glutén da minha dieta por um tempo determinado. O glutén é uma proteína presente no trigo, cevada, centeio e aveia,  mas especialmente popular na farinha de trigo. Significa que estou sem pão. 
Existe uma disfunção do intestino delgado, chamada doença celíaca, que se refere às pessoas que têm intolerância ao glutén por incapacidade de absorção dele. Não sou celíaca mas, me compadeço das pessoas que, por alguma disfunção física, estão privadas de um ou outro alimento. E sempre imaginei como seria a vida dos celíacos, sem pão. Não preciso dizer que adoro pão: comer e fazer. Me impus essa restrição e estou passando bem sem ele.
Descobri que no país da mandioca, do milho e da abóbora (que bom é viver em uma terra "em se plantando, tudo dá!"), não é um sofrimento atroz viver sem glúten. É principalmente no café da manhã que ele vai fazer falta. Pois os meus têm sido abastecido com virado de queijo (queijos derretidos com farinha de milho, comida de tropeiro) banana da terra frita com queijo coalho, tapioca com queijo, pão de queijo, chapatti de grão de bico, chipas quentinhas, arepas de milho, cuscus baiano de farinha de milho bem fininha com coco e queijo e mais um tanto de coisas boas.
Ganhei de presente de aniversário um jantar produzido por gente maravilhosa com panqueca de acarajé (invenção do Marcelo) feita com dendê artesanal socado no pilão e vatapá com farinha de milho artesanal, cogumelos, abóbora e xerém. Nunca tinha comido nada igual…
Mas, foi hoje no café da manhã que realizei que os celíacos podem ser muito felizes, apesar da restrição. Não tinha me dado conta, até então, da variedade de opções sem glúten que me criei! Tinha queijo Burrata da Balkis na geladeira - é dos meus preferidos - e uma chipa velha no armário, que requentei no forno. Lembrei dos cafés da manhã na Turquia cheios de pepinos, tomates e azeitonas. Incluí as folhas, orégano fresco, um pouquinho de azeite e flor de sal e…nossa...que delícia! Pensei que precisava partilhar. E que os intolerantes ao glúten e os intolerantes à lactose já estão melhor servidos. E isso é bom! Bom domingo à todos.

domingo, 25 de agosto de 2013

Amigos e comida



Fui para Monte Alegre do Sul, cidadezinha do interior do estado de São Paulo, onde um amigo querido mantem funcionando um bar e restaurante. Ele me convidou para a "noite do chef" e cheguei  esbaforida, me descolando de uma sexta-feira apertada demais. Não conseguia nem imaginar como é que eu ia chegar a tempo de preparar jantar para começar a servir no horário certo. Pensei o que é que a gente não faz por amor, enquanto ia indo pela estrada afora…
Somos amigos há mais de 37 anos. De épocas em que sabíamos pouco de nós mesmos, mas tínhamos certezas intensas e corações puros de intenções maravilhosas. E a vida nos colocou perto, depois longe e perto de novo.  Éramos uma trupe e tanto e quando a vida nos colocou de novo em contato fomos nos lincando igual uma rede bem tecida. Ainda nos amamos e nos admiramos e isso, de tudo, é o melhor.
Uns deram para arquitetos, outros para artistas, outros economistas, outros empresários, outros escritores, outros cozinheiros…mas, nada disso tem muita importância, porque quando nos encontramos estamos tão vivamente interessados uns pelos outros que fica claro que a essência da coisa é amor desinteressado.
Lembrei que nossas reuniões para mudar o mundo eram regadas por massas feitas por mim mesma! Eu sentia alegria em ver meus amigos reunidos em volta da comida. A mesma que senti quando depois da correria toda me sentei com várias dessas pessoas queridas em volta da mesa e comemos, ainda, a minha comida, dessa vez bem brasileira…queijo coalho com banana da terra, coentro, mel com pimenta na entrada, moqueca de caju, arroz, salada e manjar de coco com muitas especiarias de sobremesa…
A noite ficou fria, cada um de nós foi se embora novamente. Sei lá quando vai ser a próxima parada na vida capaz de nos reunir. Mas, certeza que além da receita nova que eles experimentaram, levamos doses de alegria renovada.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Yerevan, o berço do mundo e seus doces



A Paulinha é uma querida. Um dia, entre surpresa consigo mesma e duvidando da própria decisão me contou: "Vou prá Armênia. Prá um casório da família". Rimos juntas com a novidade inesperada e Yerevan (a capital da Armênia que eu também não sabia ser, até então) passou a fazer parte das nossas conversas. Quando eu for, isso ou aquilo não vai ser possível por causa dela, e por aí foi até que chegou o dia. Lá se foi a Paulinha prá Yerevan.
Ela é literata da boa e nada melhor que o relato da viagem contado por ela mesma. Mas, generosa, me incluiu e a parte que me coube era doce e linda. Chegou em um potinho de plástico e ganhou a mesa do café da manhã enquanto as novidades eram contadas prá um público interessado por tudo: a família, o casamento, as comidas, os pepinos (os pepinos são incomparáveis segundo ela), as montanhas, as cores, a língua, a música e os doces. 
Daqueles a gente podia entender um pouco mais vivamente. Estavam ali entre muitos hums! Eu queria saber do que eram os que não consegui decodificar, mas ela sorria: não sei! Eram tantos: laranja com amêndoas e especiarias, nozes, figo seco, romã e os de sabores desconhecidos. Todos incríveis.
Gosto muito dos doces do Mediterrâneo e do Oriente Médio. São bolos, biscoitos, folhados, muita semolina, macarrão cabelo de anjo e queijo. Feitos de frutas secas, muitas castanhas e inúmeras variações que dependem do lugar onde são preparados. Em Istambul, comi um baklava que não era exatamente um doce, mas uma viagem inteira...Não sei se por conta da grande imigração árabe no Brasil, mas sempre me pareceram  ter um gosto familiar. Aquele doce ativou todas as minhas papilas e memórias gustativas. 
Outro dia li uma pesquisa afirmando que o homo sapiens foi atraído para fora da África pela abundância de água doce na Baía de Eilat, no sul de Israel, fronteira com a Jordânia e Egito. E que isso facilitou a sobrevivência do homem moderno e sua posterior migração para a Ásia e Europa. 
Ok. Isso é um dado e tanto. Mas, para desfrute do homem contemporâneo, até hoje eles honram a herança. Da fonte de água doce, sendo um berço importante da evolução, para criadores de um tipo específico e maravilhoso de doce, que atravessou oceanos e conquistou terras longínquas.
E a Paulinha fez como eles: dias depois apareceu com um daqueles mini ninhos de uma única castanha, delicadíssimo. Direto do ninho do mundo para o meu ninho e meu desfrute. Certeza que ela aprendeu com os ancestrais. E eu, com todos eles. Obrigada, Paulinha! 

domingo, 11 de agosto de 2013

Feliz dia, pais!



Correu essa semana pela internet a notícia de a maior cadeia de pseudo alimentação do mundo (Mc Donalds e todas as outras redes que também lhes pertence) mudaria a receita de seu hamburguer nos EUA. Isso depois que o ativista e chef inglês Jamie Oliver denunciou em seu programa que o McDonalds usa hidróxido de amônio para converter a gordura da carne em recheio para seus produtos. Mais ou menos assim: o resto do resto, que voltaria ao mercado por um preço ínfimo para entrar na preparação de ração de cachorros, é o que o McDonalds usa para fazer hamburguer e vender para os incautos que consomem aquilo. Nas palavras do próprio Jamie: "Por que qualquer ser humano sensato colocaria carne com amônio na boca de suas crianças?".
Achei uma notícia e tanto. Independente de, na Irlanda e Reino Unido, assim como no Brasil, o MacDonalds afirmar que não tem essa prática, fica claro que tipo de coisa as pessoas hoje em dia são capazes de fazer por dinheiro. Diz que não fazia, mas vai mudar a receita.
E, hoje, é dia dos pais. O Jamie Oliver é pai. Por conta de sua profissão se preocupa com o que seus filhos comem e tornou sua a questão da preocupação com a dieta infantil  quando promoveu uma série de programas sobre a alimentação nas escolas da Inglaterra com resultados incríveis. Um pai dá estrutura. E comida é isso...
Tem muito pai por aí olhando para seus filhos e entendendo o quanto eles chegaram em suas vidas para torná-los pessoas melhores. O tanto de esforço e autosuperação que isso significa. E que, assim como o Jamie Oliver, topam essa batalha no dia a dia. 
Já contei prá vocês que o meu pai foi embora quando eu era muito pequena. A vida foi curta para mim, junto dele. Mas, o gosto pelo cinema foi ele quem plantou em mim. O desenvolver do afeto pelo aroma das ervas foi ele, também, quem plantou em mim. E, principalmente a alegria da família acho que me lembro de ser muito cara para ele. 
O  mundo transformou-se. Os pais puderam assumir cada vez mais a amplitude do exercício de seu afeto pelos filhos trocando fraldas, mudando seus horários de trabalho para vê-los  crescer mais de perto, cozinhando para eles, saindo em viagem de férias sem as mães, continuando presentes após casamentos desfeitos, topando recomeçar a vida com novas companheiras e novos filhos. Sei lá, a sociedade ampliou tanto seu leque de possibilidades que muitas formas de amar poderiam ser listadas aqui. Desfrutem seus filhos, pais. E desfrutem seus pais, filhos. Tenham todos um bom dia dos pais, com comida boa para adultos e crianças. Porque a batalha do Jamie Oliver pode não ser a sua em extensão, mas também é sua nas pequenas ações do cotidiano.
Ah, o vídeo está em inglês mas as imagens falam por si mesmas. São compreensíveis universalmente. 














domingo, 4 de agosto de 2013

Açaí é muito mais que na tijela



Ontem fiz uma farofa que ficou delícia: farinha de milho, de mandioca, ora pronobis do quintal, açaí e cubinhos de queijo coalho. Açaí de verdade, puro, nada de xarope de guaraná. Os paraenses que conheço comem açaí todos os dias (com farinha, com peixe, puro...),  ficam indignados de saber que se chama de açaí isso que a maioria das pessoas no sul e sudeste do país conhece: açaí misturado com xarope de guaraná e muito açúcar ou adoçante artificial, doce de travar na garganta... 
Só em Belém o consumo é de 440 mil litros diários de açaí de verdade. Entenda-se por puro o fruto que já foi batido, mas só com água. Tem gente que gosta daquele xarope de guaraná e açúcar, mas é preciso dizer que além de gostoso e lindo o açaí tem muitas qualidades suplementares e é uma fruta rica em gorduras mono e polinsaturadas o que o torna um amigo das pessoas com distúrbios de coração. Por isso mesmo é calórico. Mas não tão calórico assim se você retirar o açúcar e mais um montão de granola por cima, sem contar a banana...E meu argumento é que ao largar mão dessa forma que invadiu o sul e sudeste do país pode-se descobrir outro sabor muito mais interessante, e ele se torna um ingrediente coringa, para doces e salgados. Quando quiser doce, acrescente açúcar, e sal quando for o caso. Ou, ainda use-o neutro apenas incorporado às preparações. São muitas: sorvete, farofa, pão, torta, mousse (doces e salgadas), puro, cremes, crepes, tuiles, e muito, muito mais. Outro dia fiz manteiga aromatizada com açaí para passar na tapioca..
O que muitos de nós não sabemos, apesar de no Espírito Santo já começar a ser um movimento expressivo, é que o fruto da palmeira juçara é muito parecido com o açaí, também chamado de juçara de açaí.  Ainda é novidade, mas significa que a floresta amazônica dá açaí e a mata atlântica também. 
É roxo lindo por conta da antocianina, que é a mesma substância que tem na uva. A história de que uma taça de vinho por dia faz bem ao coração vem daí. O que faz bem ao coração é a antocianina que o açaí possui 33 vezes mais que a uva.
Se você curte cozinhar e quer se ariscar a inventar alguma coisa com ele procure conhecer um verdadeiro açaí. Na feira de orgânicos do Parque da Água Branca, em São Paulo, tem. E convide seu amigo paraense, se tiver um. Ele vai se sentir mais confortável diante de alguém que entende um pouquinho de alguma coisa que lhe é tão cara!








quinta-feira, 25 de julho de 2013

Que frio!


Um amigo me mandou uma foto linda: mar azul, calmo e ao lado, montanhas nevadas. Pensei que ele estivesse em destinos longínquos, mas não! Era Pinheira, logo ali no sul do país e eu achando que fosse Nova Zelândia ou algo do tipo. Em resumo: que frriiio!!!!
O Brasil sofreu a ação de uma massa de ar polar e nevou em 93 cidades do sul do país. O frio se esparramou pelo norte e até no Acre a temperatura despencou para 8 graus. E nós aqui no sudeste pegamos a cauda desse cometa congelado. Para os paulistanos 8 graus já é grau de menos demais!
Não lembro de tanto frio há tempos. Quando meus filhos eram pequenos moramos durante anos em uma chácara em Itapecerica da Serra, cidade próxima à São Paulo. Lembro que as crianças tinham um equipamento considerável para o frio. E principalmente do quanto usávamos a lareira como peça fundamental nos invernos gelados de neblina na serra e batata cozida no papel de alumínio junto com queijo assado. Sentados em frente àquela lareira muitas histórias se contaram no conforto do fogo e das experiências nos espetos com os queijos que caiam para dentro dela ajudaram a construir um imaginário fértil para as crianças e, para os adultos tambêm.
Hoje, diante da temperatura baixa dentro de casa realizei que dois únicos lugares poderiam ser confortáveis: em baixo das cobertas ou na cozinha de portas fechadas e fogos acessos. Fiz uma sopa bem gostosa que compartilho com vocês porque a noite vem por aí e quem sabe você queira se aquecer antes de se enfiar em baixo das cobertas com o coração quente de saber que há séculos estamos transformando grãos em energia para aquecer nossos corpos através da energia do fogo:e energia que gera energia de um século para outro, sem parar.

Sopa de Ervilha Partilha e Lentilha Rosa

Ingredientes

1 xícara grande de ervilha partilda
1/2 xícara de lentilha rosa
1 cebola
2 talos de salsão
1 folha de louro
folhas de orégano
1/4 de maço de salsinha
1 cenoura
sal (quanto baste)
sour cream Balkis (q b)
azeite (q b)
Sour Cream Balkis

Modo de preparo

Higienize todos os ingredientes.
Na panela de pressão, doure a cebola em azeite e frite bem a cenoura e os grãos. Por último acrescente o salsão, o louro e a salsinha. Salgue e coloque água suficiente para cobrir todos os ingredientes. Deixe cozinhar por 20 minutos. Retire o salsão e a folha de louro e bata no mixer ou no liquidificador para fazer o creme. No hora de servir coloque uma colher de cheia de Sour Cream Balkis por cima de cada tijela do creme seguido de azeite extra virgem e um galhinho de orégano.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Casa do Núcleo, alimento para corpo e alma



Coisa boa a gente tem que espalhar. Hoje fui almoçar em um lugar pertíssimo da minha casa. Chama-se "Casa do Núcleo" e não é um restaurante. É um centro cultural voltado para a música do mundo, que mantém uma programação ativa e garante espaço para gente que entenda da coisa. Ainda não fui a nenhum show, até por que só fiquei sabendo da existência da casa no domingo passado.  Como fica ao lado de uma escola que se esparrama pela região com centros de estudos e afins, jurava que era mais uma delas. Ainda mais com esse nome!
Foi inaugurada em março de 2011, associada ao selo de uma produtora e gravadora de nome Contemporâneo, pelo pianista e curador Benjamin Taubkin, que é um músico incrível. De lá prá cá, vem promovendo muitos shows, workshops e cursos. A idéia era criar um ambiente de casa, onde a dinâmica da convivência informal incentivasse a criação e participação. Nos dias de evento, a Casa mantinha um bar aberto. Recentemente, resolveu alimentar também o corpo, além do espírito das pessoas e servir almoço. 
Para você ter idéia da falta de pretensão é daqueles lugares em que o azeite que está em cima da mesa ainda tem a etiqueta do mercadinho ao lado, que quebrou um galho rápido (e é um bom azeite).
"Igual que nem" em casa. Mas, em casa que tem na cozinha alguém muito experiente e talentoso. A chef Kika Makowisk manda no fogão. Publica-se o cardápio no facebook diariamente e você chega lá prá comer. O de hoje era nhoque. A chance de um nhoque ser ruim é enorme. Geralmente tem farinha de mais e batata de menos, além de ovo  para conseguir estruturar a coisa toda. Fui mesmo porque era o único dia que poderia fazer isso e fiquei com vontade de experimentar a comida vinda de um lugar com uma proposta linda dessas. Humm. Adorei a surpresa. Acho que nunca comi em restaurante nenhum um nhoque parecido: delicado, macio e com um molho de tomates frescos em pedaços com manjericão, bem gostoso. Sei muito bem que fazer um bom nhoque não é nada fácil…e esse era despretensiosamente muito bom. 
A música é boa, o lugar é como se fosse a sua casa no dia mais simples possível. E a comida (até por tudo isso) é como música boa. Vale a pena , sempre. Experimente. São Paulo tem dessas: quando você menos espera lhe abre uma porta das coisas simples e bastante sofisticadas no espírito. 
Fiquei com vergonha de sacar a máquina fotográfica e glamourizar a simplicidade. Depois, me senti caipira. mas agora já foi. Você pode imaginar o nhoque e ir lá provar.